Número 9
Terça, 01h59 min.
“Discurso!, discurso!, discurso!”
_ Não, não. Façam isso não, que eu tenho vergonha.
“Discurso!, discurso!, discurso!”
_ Hoje nem é meu aniversário. Eu só falei que era, para que ninguém faltasse.
“Vacilão!...”
Os gritos ensandecidos dos amigos me animaram até. Lembrei-me que sempre quis fazer um discurso, um dia. O bom orador: tem que ser ágil, qualquer fala que extrapole um minuto e meio é desnecessária. Esse é o tempo máximo que conseguimos nos concentrar no que o orador diz, antes de viajarmos no universo fantástico dos pensamentos depravados e libidinosos – bem mais interessantes que discursos em geral, diga-se.
“Discurso!, discurso!, discurso!”
_ Amigos, para início de conversa, certa vez procurei os Alcoólicos Anônimos pensando que encontraria uma turma mais agradável, no que peço desculpa. Vocês são os melhores amigos do mundo!
Aplausos efusivos.
_ Acreditem: para muitos, beber é um grande problema, uma doença grave que não permite piadas, pois é algo realmente triste. Sei que vocês não conseguem imaginar como ficar sóbrio pode ser bom e prazeroso; eu também não. Afinal, o mundo é realmente muito triste...
Luizinho grita: “se estou são, não estou salvo!”. Os esquisitões riem. Os caretinhas não entendem bem.
_ A terra está em transe, meus amigos, nós todos estamos. Acho que só entenderemos nossos maiores erros quando estivermos velhos e lesados, não é mesmo?
“É”, todos concordam, em coro, de um modo meio cantado, inclusive.
Um curioso – sapo, bico, entrão –, enfim, alguém, não sei quem, canta para nossa mesa: “Beber, cair e levantar!”. Uma coisa absurda.
_ Bicudo, respeito e até admiro seu estado de embriaguês! Não digo o mesmo das suas referências culturais. Essa música é horrível. Mas, em compensação, a letra é péssima. Se você caiu e ainda assim se levantou, é tolice beber mais. O melhor é tomar um Sonrisal ou um Engov, remédios que, sem dúvida, mudaram a história da humanidade... Além do que, já é tradição, desde a invenção do achocolatado: quem não aguenta deve beber apenas Toddynho.
O velho Bicho-do-mato, grande camarada, em apoio, grita com selvageria e empáfia: “Muito bem. Sapo de fora não ronca, não!”
_ Continuemos, então. Vocês sabem das pingas que tomo, mas não sabem dos tombos que levo...
“Opa, espere aí. Sabemos, sim. Já vimos você tomar muitos tombos, contando os literais e também os não literais”, diz o Banjo do Pandeiro, com absoluta sinceridade.
_ Banjo, você é o único amigo do mundo com dois instrumentos musicais no nome e por isso tem o meu respeito. A verdade é que eu vi essa frase na traseira de um caminhão antes de ontem pela manhã e não me contive em citá-la. Os discursos ficam ótimos com citações!
“Uhhh!” – logo em meu 1º discurso sou vaiado. Estranhamente, os colegas parecem não gostar tanto de citações.
_ Acalmem-se, acalmem-se. Vocês são uns malas, pela 1ª vez sinto saudades dos colegas do AA.
“Uhhh!” – logo em meu 1º discurso sou vaiado duas vezes.
_ Amigos, durante o dia nos portamos como camaleões. Para passarmos despercebidos, nos misturamos à paisagem, porque não somos bobos e queremos evitar problemas, certo?
“Ceeeeerto!”.
_ Portanto, aproveitando que vocês estão bêbados e bem mais humanos (e nem tão camaleônicos!), proponho que lembremos...
Todos me olham de forma simpática, agora. O pessoal adora um discurso propositivo.
_ Lembremos aqueles tempos em que o futuro era só esperança e sonho, não dava dor de barriga, nem aflição, quem se lembra?
“Eu lembro”. “Eu também”. “Se lembro!”.
Com exceção do Bicho-do-mato, que teve uma infância difícil, e do Luizinho, que garantiu ter fumado as recordações da época, todos lembravam.
_ É, amigos, só vocês me entendem!, oh, quanta alegria! Pena que aqueles dias jamais voltarão. O futuro é muito assustador. Brindemos ao passado!, ele parece melhor a cada dia. Acho que até melhor do que foi realmente.
Aplausos efusivos dos amigos sem lembrança. Silêncio dos demais.
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Texto: Alexander Reis
Ilustração: Pablo Leandro