
Ele saía do trabalho cansado, pensando apenas na cerveja do fim da tarde com os amigos. Jogar conversa fora, falar de futebol, política e mulher. Era um camarada divertido e todos por ali gostavam muito dele. Achavam as vezes que bebia demais, mas nunca incomodou ninguém. Pagava corretamente a conta e ia para casa, mas não sem antes mexer com algum rabo-de-saia. Mulherengo de carta maior.
Chegava com a janta ainda quente. A mulher normalmente vendo novela e o filho já na cama. Quase sempre discutiam por algum motivo bobo e ele acabava indo pra cama sem comer ou mesmo tomar banho. Passava no quarto do filho, desejava boa noite e assim era feliz.
A janela aberta, a brisa da madrugada entrando e embalando os sonhos. Uma vida simples, no entanto, nada mais queria para si.
Um dia, sem saber por que, acordou pela manhã e sua mulher não estava em casa e nem mesmo o filho se arrumando para o colégio. A ressaca era grande. Pela janela os vizinhos olhavam. Ele nada entendia. Saiu algemado, com a reprovação estampada no rosto de todos que por ali estavam. Viu ao longe a mulher em prantos, mas nada conseguiu dizer. Seu filho, de apenas 10 anos, caído no parapeito da janela.
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Ele saía do trabalho cansado, pensando apenas na cerveja do fim da tarde. Bebia, discutia, jogava e brigava. A maioria ali se sentia incomodado com sua presença. Enchia a cara ao ponto de mexer com a mulher dos outros, o que quase sempre lhe causava problemas. Ia pra casa aos trancos e barrancos, empurrado por alguém.
Chegava gritando a mulher, pedindo a janta na mesa. Ela já estava dormindo e seu filho também. Sempre discutiam e ele acabava partindo para violência. Acordava o filho às pancadas, e depois desmaiava no sofá. Todos os dias a mesma coisa. O medo e as ameaças calavam a jovem esposa.
A janela aberta fazia com que os vizinhos ouvissem os gritos e a quebradeira. A vergonha também era grande, no entanto nenhuma atitude havia sido tomada. Telespectadores da vida alheia, pra variar.
Um dia foi mais violento que o normal. Ao partir para cima da esposa acabou dando de cara com o filho que tentava protegê-la de mais uma surra. Os dois apanharam muito, mas o filho, de apenas 10 anos não saiu do lado da mãe em momento algum. De manhã, seu corpo estava no parapeito da janela, a mulher aos prantos e o homem saindo algemado, meio sem entender o que se passava.
A reprovação dos vizinhos era grande, talvez porque a novela desta vez estivesse no fim.
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Foto: Luiz Carlos Oliveira











