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segunda-feira, maio 24, 2010

Videocast: Papo de Buteco 1

Videocast onde apresento meu Papo de Buteco, dando dicas de dois discos da minha pequena e estimada coleção!

Samba, cerveja e muita bobagem!!

A música ao fundo é da banda de gafieira Senta a Pua, que eu não pedi autorização, mas estou dando, assim espero, o devido crédito!

Espero que seja do agrado de todos. Estou melhorando... hehe

abraços e beijos!

quinta-feira, junho 04, 2009

O Universo Fantástico da Filosofia de Boteco


Número 13


Não uma nem duas vezes nos debulhamos inteiros para entender o porquê de certas coisas. É o que os mais experientes chamam de reflexão.


Já adianto que não é desta vez que vou responder às lamúrias existenciais dos colegas.

Dia desses, o amigo Banjo perguntou:

_ Será que bebo porque meu bem é triste ou meu benzinho é triste porque bebo?

_ Sei lá, respondi, creio, com uma saída das mais dignas.

Assumir ignorância na questão é opinar assim como não responder já é uma resposta, só para gastar um pouco da mais sofisticada filosofia de boteco.


O que interessa é que trago à luz fatos pra lá de verídicos, como todos os demais que conto. Relembrar instiga o entendimento, a reflexão. Sei que muitos gostariam de relatos sexuais picantes e tal, mas não posso me deixar pautar por um bando de depravados, só pela mais pura verdade.


Sábado, 23h41min. Quatorze anos antes.


Fora os bingos, frequentados por meninas que em maioria já passam dos 65 vividos, existem ainda outros lugares absolutamente perigosos para se tomar uma. Os amigos mais experientes sabem. Ah, se sabem.

Antes de chegar ao sábado à noite propriamente, devo dizer que até meus primeiros sei lá quantos anos não tive problemas com as meninas, mas com a falta. E como sempre fui o último a ser escolhido durante a formação dos times de futebol, nas peladinhas – depois dos gordinhos, inclusive –, fiquei com a autoestima baixa.

Quer dizer, com a baixaestima alta.

Quer dizer, deixe pra lá. Pois tudo mudou quando meu irmão, canalha, pai de três filhos, resolveu me levar para conhecer o paraíso, um lugar absolutamente perigoso. Para registro, na época ele não tinha tantos filhos.

Lembro que, quando cheguei, disse:


_ Mano, aqui é mesmo o paraíso. Com a ressalva única de que esse lugar paradisíaco parece um baita de um inferninho.

E foi no paraíso que encontrei uma Eva bem sacana, no sentido mais belo, chulo e sacana da palavra. Antes meu irmão, após refletir, diz:

_ Você pode escolher entre aquela ali e a Paulinha Pinel.

_ Prefiro aquela ali.

_ Aquela com uma saia vulgar que felizmente mal dá conta da sua bunda gordinha?

_ É, essa.

Daí para a minha festa de inauguração foram alguns minutos.

Eva fez como se tivesse gostado. Naquele dia um rio de águas danadas e turvas passou em minha vida e descobri que as mulheres fingem orgasmos.


_ Eva

_ Meu nome não é Eva. Sou a Siri.

_ Legal.

_ Sirigaita do Amor.

_ Vou te chamar de Eva.

_ Sua cueca tá do avesso.

_ Poxa, Eva, quero tirar você dessa vida. Acho que te amo.

_ Quantos anos tem?

_ Vou fazer 15, daqui quatro meses.

_ Hoje foi sua primeira vez? – ela desconfia, sabe-se lá como.

_ E amanhã já será a segunda. Vou vender alguma herança de família pra poder vir a semana inteira.

_ Hum. Safadinho.

_ Até te conhecer eu andava tão tristinho!

_ E desde que meu poodle morreu ninguém me tratava tão bem.

_ A coisa mais triste da vida é a morte, Eva.

_ Talvez exista um céu para os cachorros.

_ É bem improvável. Mas talvez.


Por fim, sabedor das minhas intenções e das tentações do paraíso, meu irmão, canalha, proibiu a venda de qualquer herança de família.

_ Sob pena de te quebrar todo.

_ Separe o sujeito do verbo, mas não me separe da Eva.

_ Sujeito, uma coisa leva a outra, a estupidez não leva a lugar algum. Pense.

Eis o que o safado chamava de reflexão.


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Texto: Alexander Reis

Desenho: Pablo Leandro

E, pra variar, façam o fim de semana na Agenda Cultural! (orkut)

quinta-feira, abril 16, 2009

O Universo Fantástico da (Filosofia) Psicologia de Boteco


Número 12


Espalha-bolinho [adjetivo]: aquele que faz a rodinha dispersar; ser desagradável. Uso pejorativo. Etimologia: latim vulgar, do v. espalhus-bolim: ato ou efeito de fuder o papo agradável. Ver: paporuim.


Quem quiser que confira. Eu li no Houaiss que peguei emprestado e esqueci de devolver. Tenho receio que a senhora de 92 anos que trabalha na biblioteca faleça e sua alma venha em busca do Houaiss. Um receio apenas. Como os atentos e até as não-atentas podem já prever, tornei-me sinônimo do adjetivo transcrito, e a velhinha da biblioteca pouco tem a ver. Estou na merda. Acabado. A reputação de espalha-bolinho é uma tristeza. Uma vez sido, pra sempre fica sendo, diria meu irmão, Saulo Quecoisa.


Quarta, 22h11min


“‘No bar, todo mundo é igual’ – Reginaldo Rossi, o Roberto Carlos da filosofia de boteco”, diz a plaquinha que eu mesmo mandei colocar no Bar do Baiano.

O Baiano, nascido em Belo Horizonte, é gerente, cozinheiro, DJ e garçom do bar. Fora que faz a limpeza, de vez em quando, e ainda exercita o hobby de psicólogo.


_ Não sei de onde inventaram isso de espalha-bolinho.

_ Fica tranquilo. No bar, todo mundo é igual.

_ Ah, nem.

_ Não é culpa sua. É?

_ Olha ali, tem um cliente chamando, ó.


Baiano atende à clientela no ritmo preguiçoso da boa terra. Eu tomo tranquilamente só uma cerveja. A carne cozida da casa seria mais corretamente chamada se seu nome fosse gordura cozida. O Baiano não se preocupa nem com alvará nem com nome. Bate uma azia. Nossa, cabulosa.

Consternado, o gerente oferece uma tinguaça por conta. Um consolo.

_ Aceito. De graça, até ônibus errado.


O garçom busca o molha-beiço, a água que espanta até canário-belga e aproveita para exercitar um pouco do seu hobby.

_ É na função de psicólogo que cheguei aonde cheguei, gaba-se.

_ Isso não faz sentido, Baiano. Você é o único funcionário. Sempre foi o gerente. Chegou aonde?

_ Antes eu não me sentia como “o gerente”. Só como “o garçom”.

Da última vez que o encontrei, é preciso contar, Baiano disse: “Sujo, comporte-se como gerente da sua vida e tudo irá melhorar. Olhe para o meu bar. Quando decidi que eu seria o gerente tudo aconteceu”. Mesmo sem notar o que aconteceu, pois continuava tudo exatamente igual, segui o conselho.


_ Notou alguma melhora?

_ Sim. Agora levei a fama de espalha-bolinho.

_ Abra esse coração-vagabundo, Sujo.

_ Poxa, antes eu preferia ficar calado, quieto e todos desconfiavam que eu fosse idiota. Passei a falar e todos passaram a ter certeza.

_ Temos aqui um caso clássico. Você estava mais apático que cerveja choca. Agora, está transbordando mais que cerveja quente em copo descartável.

_ Que precisão! Acho que é isso mesmo.

_ Olhe para o copo de tinguaça. Está meio-cheio ou meio-vazio?

_ Depois que eu beber vai estar vazio.

_ Hum, interessante.

_ O quê?

_ Perceba, Sujo: você falou, mas não disse. Quer dizer, disse, mas não respondeu.

_ Mas esta pergunta é mais velha que a velha da biblioteca.

_ Quem conversa em demasia até ao cavalo dá bom-dia. Não adianta falar, falar e não dizer.

_ Pensei que as pessoas gostassem disso.

_ Entendo. É sua forma de gerenciar a situação. Sinal de insegurança.

_ Certeza?

_ Só pode ser isso. De tanto tentar agradar você desagrada e espalha o bolinho.

_ Sei não.

_ É isso. Só pode.

_ Será?

_ Você sabe que seu papel na sociedade é como o da meleca no nariz e isso tem lhe afligido, não é mesmo?

_ Meleca é sua mãe.

_ Hum, interessante.

_ O quê?

_ Você agride para se afirmar.

_ Chifrudo.

_ Interessante... Já sei!

_ Ah, sabe. Sabe nada.

_ Com toda razão, você se sente como um excremento.

_ Nada a ver.

_ Rejeição é algo natural. Relaxe. Alguns gostam dos olhos. Outros, da remela. Quem gostar de remela vai gostar de você – argumenta.

_ Não é nada disso.

_ E quem não gostar de remela, que se dane.

_ Colocaram azeite de dendê na sua mamadeira?

_ Ah, não. Aí não. Agora me ofendeu. Vou fechar o boteco. Ir pra casa ver minha Baiana...

_ Faz isso não.

_ Só se assumir que se sente como um excremento.

_ Suponhamos que eu fosse. Assim sendo, saberia quem sou, de onde vim, para onde vou. Afinal, merda é merda. E a verdade é que não sei nada disso...

_ Você falou, mas não disse. Enrolou, mas não admitiu. Interessante... – ele diz, todo debochado, enquanto ri. Não por último. O pagamento fiado é a forma de retaliação mais cruel que já ouvi falar.


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Texto: Alexander Reis

Ilustração: Pablo Leandro

terça-feira, março 24, 2009

O caso da cachaça de goiaba

Final!

Você pode ir também para Parte 1 ou Parte 2!

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E seu Tonho continuou sua interessante narração:


Diz a velha máxima popular que se o Coisa-ruim fumasse, seu cigarro favorito seria Continental sem filtro, ao contrário de Deus que fuma Capri ou Charme longo, só até a metade.


Mas o certo é que o estranho rapaz acendeu seu Continental, impregnando todo o recanto, que já estava pra lá de impregnado, diga-se de passagem. Sua fumaça me fez pairar fora da realidade, onde o nome Joelma ecoava em meus pensamentos.


Os mais afoitos já devem imaginar algo bizarro envolvendo o desastre do tão famoso edifício em São Paulo ou mesmo uma coisa pior, o nascimento da horrenda vocalista da banda Calypso.


Nem uma coisa nem outra, meus caros. Joelma na verdade se tratava de uma futura paixão. Coisa que só fui descobrir um pouco depois é claro. Voltando às divagações...


O cretino terminou seu ovo, tomou a garrafa de minha mão e a abriu rapidamente. Um forte odor de goiaba e álcool lutava contra o cheiro da fumaça dos cigarros e acabou preenchendo o olfato de todos os presentes.


De modo meio que surreal ele retirou um pequeno copo do bolso do paletó e serviu a si mesmo, tomou, pigarreou e serviu outro, agora para mim. Peguei o copo e sem pensar virei, matando tudo numa golada só.


Juro, por esses olhos que a terra há de comer. Raios e trovões descontrolados começaram a cair e uma ventania nunca antes vista abriu portas e janelas, derrubando vários objetos e principalmente, assustando todos os cabrões que faltaram mijar nas próprias calças.


Meu descontrole foi total, imaginando o fim dos tempos, obviamente. Neste momento, o tempo parou e vi tudo, passado, presente e futuro, aparecendo em meus olhos. Vi a morte de papai, a doença de mamãe, meu casamento, meus filhos, meu divórcio, o bar, até muitos de vocês eu vi.


E vi, principalmente, uma mulher de cabelos encaracolados, sorriso insinuante e ares inocentes, dançando para mim. Me provocando, extenuando minhas forças. Me amando de forma sagaz. Me largando no meio do furor da paixão. Me deixando a mercê do próprio sentimento. Me afogando em lágrimas.


Poxa, eu tinha apenas 13 anos quando tudo aconteceu. E é dela que sempre me lembro. Quando voltei ao normal, estavam todos em minha volta, sem entender nada de nada. Olhavam assustados, esperando alguma reação.


Perguntei se eles tinham visto tudo aquilo. Ninguém viu coisa alguma. Falaram que eu simplesmente fiquei imobilizado e não ouvia ninguém. Perguntei sobre o cara da cachaça e nem dele eles sabiam.


Quando já estava me convencendo que tinha sido tudo um sonho olhei para o vitral de salgados e vi que faltavam dois ovos coloridos. Olhei para o balcão de cachaças, este mesmo que até hoje está aqui, e vi a garrafa prateada, me espiando como se fosse o único predestinado ao brinde.


Meu pai foi um dos poucos que acreditou em mim. Tanto é que proibiu a todos de tirarem sarro ou mesmo de beberem tal iguaria. E lá está ela, do mesmo jeito por todos esses anos.


- Mas e a tal da Joelma? Ocê conheceu tal belezura?

- Pois então. As visões me emperraram neste sentido. Tudo que vi aconteceu, mesmo quando eu me esforçava para não acreditar. Durante todos estes anos conheci três Joelmas na minha vida e as afastei antes de qualquer coisa. Fugi como o diabo da cruz. Nunca dei chance.


- Mas como assim, homi de deus...

- Não sei. Não sei mesmoooo. E é por isso que aquela garrafa é intocável. Entendeu agora?


Ao fim da pergunta Sô Tonho vira-se e sai pra a cozinha. Os demais presentes, meio boquiabertos não sabem se acreditam ou não. Mas isso pouco importa para ele.


Neste momento a porta se abre. Uma assustada moça entra como se fugisse de uma chuva inexistente. O seu perfume entorpece os homens em demasia. Ela sorri. Diz que veio de muito longe e procura um tal de Antônio, dono do bar.


Abre a bolsa e tira um cigarro, Continental sem filtro. Acende. Traga com muito charme e paciência. Diz então seu nome... Dá pra adivinhar?


Seu nome era Maria, filha do Português da padaria. Tinha ido entregar um recado de seu pai.

Joelma seria demais né?


Abraços meus caros e até a próxima.

quinta-feira, março 19, 2009

O Universo Fantástico da Filosofia de Boteco


Número 10


São Judas das Botas? Oxe. Não sei se a cidade tem esse nome como mera referência (“Ah, o Judas, aquele que perdeu as botas...”) ou se encontraram lá as botas do safado. Sei que Judas fez coisas mais graves que perder o calçado. Mas a questão não me atormenta. Não, de modo algum. Pé na estrada.


“Viver é muito perigoso”. Nem as veredas do sertão deviam ser mais perigosas que o caminho para São Judas das Botas. Deixe pra lá. Só estou divagando. Devagar, mas nem sempre. Pé na estrada. 3hs e 53 min. depois chego ao destino. Penso:

_ Será mesmo aqui o meu destino?

Vou ao bar. Peço um café.

_ Tem fumo de rolo aí?

_ Tem sim, senhor.


_ Me vê aí uma Tinguaça? Tem?

_ Tem sim, senhor. Mas não fica bem começar a frase com um pronome obliquo átono. Pega mal. O senhor sabe como é, cidade pequena, o senhor pode ficar mal falado, com fama de iletrado.

_ Me desculpe. Quer dizer: desculpe-me. Pensei que ia dizer que não ficava bem começar o dia tomando uma tinguaça.


Em frente ao boteco, uma pracinha. Um mendigo feioso, esquisitão, fica me observando, enquanto enrolo meu cigarro. Talvez por achar que eu enrole o mundialmente amado cigarrinho do capeta. Na verdade é só um fumo de rolo. O mendigo cruza toda a praça. Parece-me bem familiar: o andar corcunda, a cara de vagabundo. Ele se aproxima.

_ Qual é.

_ Qual é o quê?, picolé.

Ele me olha (esquisitão) e pergunta:

_ Não me reconhece?

_ Você é aquele cara do Big Brother Um?

Não era. Mas o pior foi ouvir:

_ Eu sou você amanhã.

_ Que brincadeira de mau gosto, mendingão.

_ Não é mendingo. É mendigo.

_ Me desculpe. Quer dizer, desculpe-me.

_ Dê-me um trago do seu cigarro.

_ Não se envergonha de ficar por aí pedindo cigarro para um desconhecido?

_ Quando eu tinha sua idade me envergonhava. E não somos exatamente desconhecidos. Sou você amanhã.

_ Eu não sou banguelo.

_ Não, hoje.

_ Não sou careca.

_ Ainda.

_ Não sou de todo xexelento e fedido.

_ Por enquanto.


É. O mendigo é bem esperto. Tem a resposta na ponta da língua. Provavelmente, não sou eu amanhã. Nunca fui esperto. Para não parecer injusto, resolvo fazer umas perguntas. Para, vocês sabem, averiguar. Como quem não quer nada, digo:

_ Quantas vezes repetiu o exame psicotécnico?

_ Passei na quarta tentativa. O que você quer com uma pergunta dessas?

_ Nada. De quantos colégios você foi expulso?

_ Nenhum. Eu só dormia durante a aula.

É. Se o mendigo-feioso-careca-banguelo-xexelento não sou eu, talvez nem eu mesmo seja eu, no caso de isso ser possível.


_ Bom, mendigo... Não há dúvidas que você diz a verdade. Mas o que manda? Se você sou eu, não vai chegar me extorquindo, né?

_ Não, quero só falar de umas coisas. Umas reflexões minhas.

O mendigo é mais um adepto da filosofia de boteco. Sou eu amanhã, mesmo.

_ Diga, fedorento.

_ Andei pensando. Viver é como pegar estrada. Cheia de buracos que nos fodem. Sem placas que indiquem o caminho. A vida é mal sinalizada. Fora às bifurcações. Será que pegamos a estrada certa? Não sabemos pra onde ir. Erramos o caminho. Voltamos.

_ “Pra quem está perdido, qualquer desvio é caminho”.

_ Desvio é desvio, seu animal. Daqui alguns anos você vai largar mão dos clichês.

_ Dos clichês, dos cabelos e dos dentes, pelo jeito. Fora as coisas materiais. Pelo visto, não vou ter porra nenhuma...

_ Posso continuar?

_ Tem mais?

_ Hoje em dia, só ando no acostamento. Pelo menos escapo de malucos que invadem a contramão.

_ É, fedorento, na vida e na estrada, as cagadas são fatais. “Viver é muito perigoso”.

_ Muito. Posso ter perdido a dignidade, mas não a razão.

_ Não fale assim, que até me emociono. Vem cá me dar um abraço. Vou deixar um trocado para você. Quer dizer, vou deixar um trocado para MIM, só que amanhã.


E, sorrateiramente, o fedorento me olha como quem diz “peguei mais um otário”. É. O mundo está cheio de filho da puta.


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Texto: Alexander Reis

Ilustrações: Pablo Leandro

terça-feira, março 17, 2009

O caso da cachaça de goiaba


Parte 2

Num ar sombrio e nebuloso, graças a todo o cigarro que ali faziam uso, Seu Tonho começou a narração. Todos os bêbados de plantão sentaram-se, quietos e atenciosos para ouvir, fazendo inveja em muita sala de aula de Ensino Médio e assim deu-se o início:


Era uma noite escura e fria do mês de julho de 1974. Eu, ainda muito jovem cuidando do bar para meu pai, Seu Tonhão, que neste dia em particular tinha pegado uma estranha infecção, que mais tarde fui conhecer como gonorréia.


Mamãe também ficou sabendo e a separação veio logo em seguida. O famoso desquite por que divórcio só existiu a partir de 1977.


Nesta noite, os bêbados se amontoavam no balcão, como hoje mesmo, implorando por cachaça fiado e cigarros Plazza ou Continental. No entanto, um dos bêbados não me era familiar. Sujeito bem apessoado, de uns 30 e poucos anos. Paletó um tanto gasto e um rosto triste que só vendo.


Chegou até minha pessoa e falou ao pé do ouvido: - Garoto, tá a fim de pegar uma pinga da boa?


Evidentemente não tive resposta. Os olhos dele brilhavam. Fixou atentamente para o vitral de salgados e pediu: Um desses ovos coloridos, por favor.


- Ovos coloridos? Aquilo não é um kibe?

- Kibe nada sô... É só assoprar que as moscas saem.


Devorou o ovo com extrema voracidade. Foi o único até hoje, pra falar a verdade. Fez cara de macho e tirou a garrafa prateada da bolsa dizendo:


- Esta é uma garrafa mágica, meu jovem. Quem dela bebe, terá vida eterna. Estou aqui para lhe ofertar, e em troca, quero apenas mais um ovo. Do azul, por favor.


Peguei a garrafa com muito cuidado e assombro. Apesar dos meus 13 anos acendi um cigarro e fiquei pensativo por longos segundos.


Examinei cada canto da garrafa e quando fui verificar o fundo algo estranho estava escrito. O nome de uma mulher. Mas não de uma moça qualquer.


Um nome que ainda dava calafrios a todos em nosso país neste estranho ano de 1974. Ano de uma Copa do mundo pra lá de surreal, onde a Holanda merecia ganhar e a Alemanha levou. Ano que meu Cruzeiro foi roubado do Vasco da Gama na final do Brasileiro! Outra vergonha nacional.


Mas, principalmente o ano que deixou um nome marcado, e era este nome escrito no fundo da garrafa: Joelma!


E deixa mais um pouco de suspense, que tá ficando ótimoo!!


Abraços!

quinta-feira, março 12, 2009

O caso da cachaça de goiaba


Parte 1


Muitas são as histórias que envolvem a chamada filosofia butecal, mas nenhuma é tão assustadora e apavorante como O caso da cachaça de goiaba!


Vou contar, pois ouvi este mesmo causo na época que trabalhava no pequeno bar do meu tio. Nunca havia falado isso para ninguém, mas chegou a hora, esperando esta sexta-feira 13. Mais apropriado, impossível né?


Sendo a cachaça o elixir da maioria dos mineiros, nada mais comum do que uma história envolvendo tal substância como ponto de partida. Aventuro-me nesta jornada, para ver no que dá.


Tudo começa em um pequeno buteco, de um bairro qualquer, de uma cidade específica, Belzonte, é óbvio! Estavam todos aconchegados em suas cadeiras, com seus respectivos copos, cervejas e afins, bebericando e saboreando os pequenos prazeres da vida, quando de repente, não mais que de repente chegou Seu Zé e perguntou:


- O Tonho! O Tonho! Trás uma branquinha da boa, faiz favor? Hoje é sexta-feira e quero comemorar! Meu time ganho, minha muie me largo, minha amante me chifro! Tô filiz que só vendo!


- Já vai Zé! Tem buchada de tira-gosto! Qué não? Foi Patroa que fez, agurinha...


- Hoje não Sô Tonho! Vô ficar só na guarapa mess!


Bebericando aqui e ali, Seu Zé foi ficando, como se diz? Chapado igual uma caipora doida e levantou a seguinte questão a todos que ali estavam:


- Pessoar! Alguém por obséquio pode me dizer por que nunca Seu Tonho abriu aquela maldita garrafa prateada? Deve ser a cachaça mais da boa que ta teno!


Todos assustados se entreolharam. Ninguém ousava emitir qualquer sílaba que fosse. Seu Zé foi achando aquilo estranho e indagou:


- Que miserê é esse, minha gente! Cachaça é pra tomar num é não?


Seu Tonho, um tanto atordoado chamou Sô Zé no canto e lhe revelou o maior dos segredos. Muito maior do que o ego do Diogo Maynard ou a idiotice do Arnaldo Jabor. Muito pior do que o passado da Xuxa ou as prestações das Casas Bahia!


Muito mais feio do que o Russo e o Tiririca misturados. Muito mais irritante do que um show do Calypso em conjunto com o Latino. Coisa pesada mesmoooo!!!


Mas isso fica pra próxima crônica, para não cansar vocês e aguçar a curiosidade!


Abraços!


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Fim de semana? Clica ai!

segunda-feira, março 09, 2009

Momentos



Bebericando uma Brahma gelada no Bar do índio sempre encontro assuntos surreais para escrever. É certo dizer que naquele recinto, ou melhor, Recanto, existe uma gama de loucura que transcende qualquer percepção.


Creio que, se Nietzsche tivesse passado uma madrugada sequer no índio com toda certeza Super-homem seria escrito de outra maneira e ele nunca teria perdido sua mulher para Rainer Maria Rilke. O cara tinha nome de mulher poxa! Alemão mais esquisito viu... mas também, qual que não é!


Em minha última passagem por lá, um dos bêbados de plantão foi até a mesa que eu me encontrava e disse em tom de segredo, enquanto estendia a mão: Você é músico não é?


Acostumado a ser confundido, não achei estranho, apenas disse que tocava de brincadeira, um pandeirinho de leve. Ele não me ouviu e continuou a falar: Lembro muito de você! Tocamos juntos num buteco lá na rua Tremedal! Não lembra?


Se ainda estivesse falando do Tremendão Erasmo Carlos, eu até faria um esforço para entender, o que não era o caso. Depois fui descobrir que é uma rua ali do bairro Carlos Prates!


É claro que eu não me lembrava. Nunca tinha visto aquele senhor em toda minha vida. Mas ele não se cansou: Você toca violão né? Época boa! Eu fui pro exército sabia?


Creio que neste momento ele percebeu minha cara de panguá e começou a compreender que tava literalmente falando sozinho: Mas você nem tem idade! Ta com quantos anos? Uns 43?


Poxa! Tá certo que aparento mais do que tenho, mas 43 ele magoou de verdade, mas mesmo assim continuou: Nada! Você é mais novo! 19 né? Eu nem tinha o que responder, juro!


Neste momento, meu companheiro de copo voltou do banheiro e o bêbado, após cumprimentá-lo calorosamente, nos deixou, balbuciando palavras incompreensíveis.


É por isso que não deixo de ir pra lá, e sempre que posso apresento para as pessoas. Considero importante essa proximidade, pois, verdade seja dita; de sambista, médico, bêbado e louco, todo mundo tem um pouco!


São momentos assim que fazem do buteco o melhor lugar para se conviver!


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Achei a imagem em uma piada que recebi por email, infelizmente sem fonte. Se alguem souber, agradeço!

abraços!!

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

A Parábola - Parte Final


Nossa narrativa não para (agora na nova regra gramatical) minha gente! O viajante quer chegar em casa e eu aqui enrolando... Semana atribulada, mas isso depois eu conto.


Lá ia ele, feliz e saltitante por seu caminho, pensando agora no clássico do final de semana entre XV de Jaú e Estrela do Norte quando percebeu que já podia avistar sua humilde residência.


Apertou o passo, pois não via a hora de dar um abraço apertado em sua mulher. E que abraço seria esse! Com toda certeza tentaria correr atrás do prejuízo!


Quando estava para chegar no pequeno quintal avistou sua mulher acariciando um jovem rapaz deitado na rede. Nesse momento, desperto pela raiva, tirou a peixeira de cabra-macho que era e já ia pra cima dos dois infelizes, quando lembrou do último conselho: Não aja de modo algum conduzido pela raiva.


Corno manso, Corno manso! Bradava o seu interior. Mas mesmo assim decidiu seguir o conselho do patrão e foi repousar nos fundos do barraco até se acalmar.


Com o cansaço da viagem acabou adormecendo e foi acordado por sua mulher logo pela manhã. Estupefata e muito surpresa ela o abraçou carinhosamente com lágrimas nos olhos como convém uma boa parábola sendo mexicana ou não.


Ele tentou impedi-la, perguntando prontamente quem era o rapaz com quem estava em chamegos. Ela naturalmente respondeu: Lembra do dia em que você partiu? Após nossa lua de mel? Eu engravidei! Aquele rapaz é o teu filho, já um homem com 20 anos de idade.


A alegria transbordou em teus olhos e mais uma vez agradeceu os conselhos do patrão. Nem se ligou ao fato de seu suposto filho ser negro, muito parecido com o antigo vizinho e ele branco de olhos verdes. Bobagem não é mesmo? Deve ter puxado o lado da família dela.


Assim, após uma confraternização digna de Hollywood, pegou o outro pão dado por seu patrão e repartiu entre seus familiares.


Surpresa tal, havia dentro da massa todo o dinheiro que lhe era devido, inclusive vários papelotes de cocaína, sementes de cânhamo, uma PT 380 e três identidades falsas.


Poderia seguir a vida, finalmente, ao lado de sua linda e fiel esposa.


Hoje em dia dizem as más línguas que se separou e vive com uma ninfeta de 20 anos e mais um rapaz que responde como Juan. Sua mulher fugiu para o EUA e casou-se com um negro espadaúdo, sargento de exército, que viaja muito.


Seu filho ficou na casa e apaixonou-se por Juan, criando um lindo triângulo amoroso, já que Juan também é chegado na nova esposa do velho homem.


Fala sério! Parábola assim nem Paulo Coelho né? Depois dessa, levantei bêbado e fui para casa escrever... Não poderia deixar passar...


Abraços minha gente e até a próxima!


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Eventos Culturais? Samba, teatro e cerveja? Clica ai, vai! Clica!! (Orkut)

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

A Parábola - Parte 2


Mas agora que a parábola fica boa, meus caros. Nada como um pouco de ação na vida daquele andarilho que queria apenas voltar para casa.


Lembro-me com perfeição que nesta parte do conto, entre um copo de Brahma e uma leve tragada, o bendito contador era interrompido por outro bêbado presente no recinto. Bar do índio tem muito disso. Ninguém espera a vez de falar.


Continuando...

Andava ele pela estrada pensando na morte da bezerra quando passou um caminhão de bóia-fria lhe oferecendo carona.O motorista dizia que eles seguiriam por um trecho diferente, mas que poderia lhe deixar bem mais perto de sua choupana.


Quando já ia embarcar lembrou do primeiro conselho de seu patrão: - Siga sempre seu caminho. Muito agradecido recusou a gentileza e seguiu a pé, comendo poeira e tossindo como uma caipora doida. O caminhão partiu, é óbvio ululante.


Após algumas horas de caminhada ele percebeu um estranho movimento ao pé da ribanceira da mula manca. Vários curiosos que ali estavam lhe contaram que aquele caminhão de bóia-fria havia acabado de sofrer um terrível acidente, matando todos os passageiros, inclusive a retirante Luana, interpretada por Patrícia Pilar na novela Rei do Gado, da obra de Benedito Rui Barbosa. (lembram?)


Muito triste, ele continuou seu caminho, quicando e mexendo o ombrinho, ao mesmo tempo também dando graças por não ter subido na boléia daquele veículo.


Cansado de andar decidiu se hospedar em uma pequena pousada, que era barata e humilde, porém limpinha. Entrou em seu quarto e quando já estava pronto para dormir ouviu estranhos sons que vinham do lado de fora. Uma bagunça infernal tomava conta da bagaça.


Quando já ia abrir a porta e ver o que se passava lembrou do segundo conselho do estimado patrãozinho: - Não seja curioso.


Respirou fundo, concentrou-se em algo menos excitante como a música do Wando Meu iaiá meu ioiô e voltou para cama. Acabou dormindo o sono dos justos.


Na manhã seguinte foi acordado pela polícia, sirenes e rabecão. Contaram-lhe então que na noite passada o filho do dono da pousada, viciado em crack, cocaína e RBD chegou fazendo muito alvoroço e matou à todos que ousaram sair do quarto.


Nosso viajante juntou seus trapos e saiu rapidinho dali, por que tudo que não precisava naquele momento era servir de testemunha, passar duas horas na delegacia e dar entrevista para o "jornal" Super. Antes é claro, agradeceu novamente por ter se lembrado das palavras do querido patrão...


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E agora que a história tá ficando boa, mais uma pausa. Continuo depois, viu?

Programação cultural pra lá de porreta? clica ai! (orkut)

Abraços!!

sexta-feira, janeiro 30, 2009

A Parábola - Parte 1


Tem dias em nossa vida que o problema maior do mundo parece coisa pequena comparado ao que sentimos. Estranho não é? Mesmo bêbado costumo aprender muitas coisas. Vai vendo!


Hoje estava bebidamente triste e me acabei no glamoroso Recanto do índio, onde uma Brahma gelada sempre é a maior parceira. Chorando o leite derramado um indivíduo sempre percebe tal inquietação, e como num piscar de olhos começa a balançar beiço, demonstrando uma infinita lábia e trejeitos para contador de histórias.


Este sujeito, um tanto simpático, após contar uma triste e feliz passagem de sua vida onde tinha acabado de recuperar a visão, relata ansioso uma pequena parábola, que, segundo ele mesmo, foi passada por um andarilho, no meio-fio de um lugar qualquer.


Agora lhes conto, é claro, em minha versão, que é bem mais divertida e muito menos cristã.


Dizia ele que um pequeno lavrador tinha acabado de se casar e disse a sua humilde esposa após a noite de núpcias: - Vou-me embora por 20 anos e quero que me espere, pois voltarei rico para construir nossa felicidade.


A moça, Amélia nesta época, concordou, e viu o marido partir. Este, corno esperançoso, foi para uma fazenda a léguas de distância e após conseguir emprego disse ao seu patrão: - Doutor, não quero que me pague agora. Prometi a minha amada riqueza. Guarde tudo que me deve e me dê daqui a vinte anos. O patrão que não era bobo nem nada acabou concordando. Otário nem imaginava os juros que poderia ter conseguido.


Passados os vinte anos o humilde e trouxa empregado foi até seu patrão reivindicar o honorário. O doutor prontamente fez um banquete e finalizada tal festa disse ao homem: Posso lhe dar agora tudo que lhe devo, ou três sábios conselhos, segundo Paulo Coelho. O que você escolhe?


Não tendo nada a perder, além da esposa que já devia estar com outro, e 20 anos de salário o pobre mancebo escolhe os conselhos, é claro. E eram eles:

1- Siga sempre o seu caminho

2- Não seja curioso

3- Não aja de modo algum conduzido pela raiva


O corno, satisfeito com tais conselhos foi seguindo viagem, e antes de partir recebeu ainda dois pães de seu miserável e sovina patrão e este lhe disse: - Um dos pães é para você matar a fome e o outro é exclusivamente para dividir com sua família.


O homem foi caminhando para casa, em busca da tal felicidade e sempre se lembrando dos conselhos do patrão. Com toda certeza CUT, CLT e CTB não existiam nesta época.


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Pra não ficar muito cansativo continuo a saga segunda-feira ok?

Fim de semana e programação cultural? clica ai! (orkut)

Bom fim de semana!!