terça-feira, dezembro 09, 2008

Maratona - O fim! (agradecimentos e rasgação de seda)

Sim minha gente! Após 48 horas de muito samba, chegamos ao fim desta Primeira Maratona. Foi divertido, cansativo, e surreal em vários momentos. Tenho uma lista de agradecimentos e juro que nem sei direito como escrever tais fatos. Adianto que EU GANHEI esta peleja! Consegui ofuscar a vitória são paulina no Brasileirão!!!


Foi fácil não, viu! Começarei do começo, dividindo este relato em dois posts, sendo assim, paciência! Lembro de várias coisas, ou alguns flashs, sei lá. Vou contando devagarim, miudim, mesmo por que ainda estou meio zonzo depois de tanto batuque.


Penso o seguinte. Ficaria meio chato uma narração linear de todo o trauma. Vou apenas jogando algumas impressões. Não quero parecer pretensioso ao ponto de vocês acharem que ganhar essa maratona de samba ou a são silvestre tem o mesmo valor. É óbvio ululante que o samba vale bem mais e faz muito mais sentido do que simplesmente correr.


Pra começo de conversa, agradeço aos meus amigos João Carlos, Alexander e Reinaldo, que me apoiaram pacarai, não só nas caronas entre as casas de samba, como também na boa companhia. Aline e Luciana também, indo me ver de manhã, que com certeza era o horário mais difícil. Agradeço também a todos os outros que foram me visitar em cada samba, mesmo estando eu em outra dimensão, incapaz de uma conversa coerente. Maíra, Marina, Renata, Rafa, Pablo, Michele, Igor, Alberto, Ana Paula, Guilherme, Venúncia, Adelino, Denise e todos os outros.


Continuando, gostaria também de citar as ótimas amizades que fiz durante esta trajetória: Lucas, oponente dos mais honrados que acabou virando um grande aliado! Flávia que nos divertiu muito, Camila, mesmo tendo dormido tanto foi sempre uma graça, Adrilene pela boa conversa e carinho, Mateus, Cosme, Josi, Joyce, Danúbia, Marina Gomes... eita... gente demais da conta.


Por fim, os sambistas e organizadores, porque sem eles nada disso seria possível: Miguel dos Anjos, Janaína Moreno, Mestre Jonas, Dé Lucas, Ricardo Acácio, Marcelo Roxo, Ronaldo Leon, Fábio, Peterson, Fred nego véio, Mário Moura, Rudney Carvalho, Warley Henrique, Arthur Carvalho, Toninho Gerais, Sérgio Danilo, Diza Franco, Mateus Bahiense, Thiago Delegado, Rogério San, Solange, Fernando, Du, Ana e sinceras desculpas se esqueci de alguém.


Foi ótimo também ter conhecido Edu Krieger, grande compositor carioca e um exemplo perfeito de que talento e humildade podem conviver tranquilamente. Ainda teve que me aturar bêbado, oferecendo cachaça! Pobre coitado! Fernando Bento também deu show! Parabéns aos dois!


É... ainda estou em repouso! Por isso vou ficando por aqui. Próximo texto volto com minhas rotineiras ironias e espero já ter me lembrado de alguns momentos. Será que bloqueei conscientemente algum acontecimento? Vá saber...


No domingo, mais pra lá do que pra cá, lembro parcialmente do show de Nei Lopes. É a vida né...


Recebi o Prêmio e hoje sou o maior folião de Belo Horizonte! Que honra!


Ô Sorte, como diria uma nêga linda que conheço! Ô Sorteee!!!

quinta-feira, dezembro 04, 2008

O Universo Fantástico da Filosofia de Boteco


Número 4


Quinta, 06h45min


Pois é. Foi ainda no horário em que costumo passar com as deusas que colorem meus sonhos, que encontrei em bela manhã o colega Bicho-do-Mato. E uma atraente garrafa que se aproximava do fim.


_ Ô rapaz. Você na minha esquina?, escornadão. Malzão. O que acontece?, terminou com a namorada?

_ Vão comemorar. Vão beber, vão chapar!

_ Bicho-do-Mato, você está bêbado.

_ Como adivinhou? Um brinde ao adivinhão! – ele grita.

_ Comemorar o quê? Resolveu casar? Pensei que você morreria solteiro e sozinho.

_ Vão comemorar o sucesso, meu amigo. Vão brindar a glória, a fama!

_ Bicho-do-Mato, não sei o que você anda usando. Mas estas drogas de hoje em dia são muito pesadas. Cuidado.

_ Tô usando nada, não. Tô comemorando porque você tá ficando famoso com estas filosofias abiloladas...

_ É?

_ Consegui marcar uma entrevista para você conceder hoje à tarde, ao AQUI. Daqui a pouco tá famoso. Quem sabe paga aquela grana que me deve.

_ No AQUI?

_ Não reclama. Pra começar está bom. Tim-Tim!


14h23min


_ Um amigo meu diz que vocês jornalistas são todos uns canalhas, no que concordo. Mas você é um canalha atrasado. 23 minutos atrasado – digo, pra descontrair.

_ Vamos começar logo. Daqui a pouco tenho que apurar um caso de uma mulher com três pescoços, lá no Venda Nova.

_ Eletrizante. De onde tiraram a idéia de me entrevistar? Eu não tenho três pescoços, pelas minhas contas.

_ Estamos começando uma série de reportagens sobre pessoas perturbadas e esquisitas. Ontem, por coincidência, estava tomando uma com o Bicho-do-Mato. Ele disse que precisávamos te conhecer!

_ Ah, entendo.

_ Podemos...? Vamos logo. Como você se define?

_ Sou um Sujeito assim, digamos, indeterminado.

_ Okay...

_ Espera. Posso mudar minha resposta?

_ Sem problemas.

_ Sou assim, como um caminhão sem freio.

_ Okay, próxima. Você acredita que esta tal filosofia de boteco pode melhorar a vida das pessoas?

_ Acho improvável. Espera. Posso mudar minha resposta?

_ Sem problemas.

_ Acho impossível, anote aí.

_ Sim, sim. Confesso que esperava respostas polêmicas. Loucas. Malucas. Não sei. Pelo que o Bicho do Mato havia contado, pensei que fosse um completo desequilibrado.

_ Nunca cometi crimes passionais.

_ Tudo bem. Vamo lá. Em que se inspira para criar suas teses?

_ Tomo uma tinguaça, aí baixa o santo!

Agora ele se empolga, tendo em vista alguma aparente perturbação em minha alma.

_ Sério? Você incorpora o santo?

_ Não, mas é o que você quer escutar, não é?

_ De certa forma.

_ Por isso as pessoas mentem.

_ Como assim?

_ Mentimos por 3 razões básicas: 1) Porque sabemos as mentiras que os outros querem (e/ou precisam) escutar.

_ Continue.

_ Pois bem, 2) mentimos ainda para escaparmos de encrencas e 3) para culparmos alguém por conta de alguma encrenca.

_ Legal. Às vezes, em uma mentira englobo todas essas razões! Mas só minto profissionalmente.

_ O único problema da mentira é que ela não é verdade, não acha?

_ Acho que se esqueceu de uma razão básica que todos temos para mentir!

_ Nunca esqueço nada – eu digo, mentindo sem qualquer razão.

_ A única forma de justificar uma mentira é contando outra: razão básica de muitas mentiras!

Agora o danado me pegou. Mas escapo.

_ Considero essa apenas uma razão secundária. Não, básica. É isso.


Nossa conversa avança; torna-se razoavelmente interessante. O repórter, parece-me, começa a entender que o bizarro está no lugar-comum e que muitas coisas esquisitas são tidas como normais. Empolgo-me. Quem sabe uma matéria de capa! Até que ele diz:

_ Uma última pergunta, para fechar. Pode a filosofia de boteco ajudar na solução de crimes em bares, nunca resolvidos?

_ Que sandice! Some daqui. Vaza! Canalha vagabundo.

_ E você, vá procurar um emprego de verdade. Sujeito maluco!

E com um tombo, com uma queda dolorida, encerro minha escalada para a fama.


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Texto: Alexander Reis

Ilustração: Pablo Leandro

terça-feira, dezembro 02, 2008

Biscoito frito

Amigos, inimigos e leitores assíduos deste humilde, porém limpinho, Blog/Buteco!


Informo com muito pesar que estou gripado, tendo então que me sujeitar veja vocês, ao repouso, durante a preparação para Maratona do Samba que ocorrerá no próximo fim de semana.


Isso só pode ser olho gordo de algum participante que sabe do meu potencial! Mas darei a volta por cima, levantado e sacudindo a poeira. Pensando bem, abro mão da poeira. Posso piorar.


E para lembrar: Sexta tem texto de Alexander, que com seu fã clube arrasta milhares de visitantes, e também ilustrações de Pablo Leandro, o famoso negro drama da noroeste. Esperem pra ver!


Abraços e fiquem com essa curtinha!


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-Ai amor! Que noite maravilhosa! Hum... Teve bom né?

-Você por acaso sabe fazer biscoito frito?

-O quê? Essa posição é nova pra mim... Só conheço as tradicionais.

-Não mulher! É biscoito mesmo! Me deu uma vontade de comer. Lembrei de minha vózinha. Ela sempre fazia biscoito frito. Você sabe fazer?

-Lembrou da sua avó enquanto está na cama comigo? Tá de sacanagem né? Jurava que era algum tipo de tara. Acordar falando nisso... Freud explica.

- Eita! Nada a ver! Vontade é vontade, uai. E é facinho, sô. Se eu não fosse uma negação na cozinha tentava. Tem como?

-Que coisa! Você lembra a receita?

-Mais ou menos... Tem que ter 1 lata de leite condensado, 4 ovos, 2 colheres de de fermento em pó, farinha de trigo e 3 colheres de sobremesa de amido de milho.

-E ai?

-Aí é só bater o leite condensado e os ovos até dar a consistência de gemada. Acrescentar o fermento, farinha de trigo e o amido de milho. Misturar e acrescentar mais farinha de trigo, conforme o necessário, até dar o ponto de amassar com as mãos, sem sovar. Cortar a massa, fazer as rosquinhas e fritar. Depois, passar no açúcar com canela. Dilícia!

-Quem diria! Você sabe mesmo! Sinceramente, nunca tinha ouvido uma conversa tão interessante pós-coito.

-Por isso que você gosta de mim. Excentricidade é o que me deixa verdadeiramente sexy.

-Biscoito frito! Quando contar para minhas amigas, nunca vão acreditar.

-Contar? Pra quê? Eu heim. O que acontece na cama morre na cama. Não é assim?

-Até parece que você não conta tudo para seus amigos.

-Lógico que não. A gente confia na mulher, passa receita de família e ela sai contando pra todo mundo?

-Uai... Meio surreal não acha? Acabar de transar e falar em biscoito! Onde já se viu?

-Não! Não acho! E eu pensando que você era diferente. Que podia confiar meus segredos mais profundos e tal.

-Ai ai... Olha o drama! Tá bom. Não conto.

-Hunf. E aposto que nem vai fazer o biscoito.

-Faço sim meu lindo. Mas antes.... Vem cá vem benzim. Ainda dá tempo de mais uma.

-Sabe o que é bom também?

-Hummm... O quê? O quê, meu tesão? Diz no meu ouvidinho!

-Rosca de batata doce! Dilícia!

quinta-feira, novembro 27, 2008

Maratonas


Lembro-me exatamente como se fosse hoje toda a apreensão, coração batendo forte, medo do desconhecido, da vergonha ou do erro. Não. Não estou falando de um primeiro beijo ou algo mais pecaminoso. A sensação descrita era na verdade de uma Maratona Cultural que todos os anos acontecia no Colégio onde estudei e os alunos de 5ª série ao 3º ano eram sumariamente obrigados a participar.


Eu explico: É só imaginar uma competição entre turmas do mesmo colégio ou não, onde os alunos tinham que responder perguntas sorteadas entre todos os conteúdos. Nós também éramos sorteados e tínhamos que subir até o auditório onde uma junta de professores nos questionava e dava o veredicto. Na frente de toda uma platéia, é claro.


Um verdadeiro terror pela pressão e cobrança. Por várias vezes vi meninos considerados mais inteligentes errarem por simples nervosismo, e alguns que nunca prestavam atenção acertarem, por que não tinham medo de estar ali. Muito choro e correria para o banheiro também faziam parte do enredo.


Sempre considerei isso uma tortura, apesar de ter mais acertado que errado. Era e ainda sou uma pessoa calma. No entanto, ficou o trauma.


Estas tinham sido até então as únicas maratonas da minha vida, sendo que correr nunca foi meu forte. Sou uma pessoa muito mais de andar, comendo quietinho e devagarzinho como um bom mineiro.


Agora tenho a chance de me redimir. Dá pra acreditar que dias 6 e 7 de dezembro acontecerá em Belo Horizonte uma Maratona de Samba? Quase chorei de emoção ao saber. 48 horas de muita música em três lugares bem tradicionais: Cartola Bar, Ziriguidun e A Casa.


Comecei minha preparação para esta peleja, mesmo alguns caluniadores dizendo que já nasci para tal. Bebi segunda, me aqueci terça, dominei na quarta e chorei na quinta. Amanha tem mais. Assim será até o dia 6, onde pretendo mostrar todo meu potencial, estando 110% e me entregando de coração, corpo e alma como todo bom jogador.


Conto com a parceria e a torcida de todos os amigos e inimigos. Dá pra fazer, gente, como diria o tal sujo, que perdeu pro outro mal lavado.


Narrarei esta jornada e também como está sendo meu condicionamento, não se preocupem! No mais, passa lá, dá uma olhada na programação e vamo pro samba, sambar!!


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Um Salve ao Miguel dos Anjos, que está organizando este evento e pra todo mundo do samba nesta gloriosa cidade! Nos vemos por lá!

terça-feira, novembro 25, 2008

Avisos, novidades, pecados e outras coisitas


Meus caros, apertado com as costuras estou. Fim de ano é triste. No entanto tenho a honra de lhes apresentar um novo personagem.


Ele se chama Belista, o único mendigo comunista que eu conheço. Será o representante filosófico de nosso blog/buteco. Ainda está em construção e este é apenas um primeiro esboço, mas já adianto que vai ser a cara do nosso Brasil, com suas contradições e esquisitices. Os traços meio toscos ainda vão melhorar.


Novidades no próximo mês. Espero que seja do agrado de todos.



Por fim, qualquer semelhança com a realidade terá sido mera coincidência.


Para não perder viagem, uma curta que acabei de escrever.


Abraços.


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Pecados


Hoje acordei com uma fome horrenda, devorando com voracidade tudo o que tinha pela frente. Poxa vida, café da manhã é a principal refeição do dia, né não? Quem sou eu para pensar nos mortos de fome deste país. Comer até a barriga doer, isso sim.


Após tanta comida a preguiça me venceu e acabei voltando para a cama. Não precisava sair tão cedo e o dia estava cinzento e triste. Dormi um bucado antes de me arrastar para o chuveiro.


Depois de um banho demorado e quase duas horas me arrumando sai para trabalhar. Só de imaginar aquele ônibus lotado a cabeça latejava de dor.


Meu vizinho cretino, que trabalhava a dois quarteirões ia com seu carro do ano, e eu de Pindorama em horário de pico. Isso é justo?


A dor de cabeça transformou-se em raiva quando o motorista passou direto no ponto, deixando todos plantados. Xingar sua querida progenitora era o mínimo que eu poderia fazer.


Pior seria se não fosse a presença da secretária gostosa, que eu pude paquerar até que passasse outro bendito (e também lotado) veículo.


Para terminar bem o dia, tive que pagar minhas dívidas com o que restava no banco, me deixando praticamente zerado. Não que eu seja pão duro, mas há cristão que tolere tanta coisa pra quitar?


Aí está um dia comum onde qualquer pessoa pode passar sem perceber pelos 7 pecados capitais, segundo São Tomás de Aquino. E olha que nem contei com o fim de semana heim... Faltariam pecados, com toda certeza.


Cuidado, pois a redenção está mais longe do que você imagina. Como diria o sábio, legal seria passar os dias de semana no céu e os sábados e domingos no inferno. Diversão garantida!


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sexta-feira, novembro 21, 2008

O Universo Fantástico da Filosofia de Boteco

Número 3

Não há universo fantástico que sobreviva sem a presença feminina, suplicam-me os colegas. Nem em mesa de boteco conto mentira, por isso o aguardo. A demora. A seca. Mas os colegas diziam: “Pode ser feia. De todo modo, ninguém irá vê-la”.


Sexta, 21h54min.


Opa. Aquela ali ó, com cara de ressaca, até que é bonitinha. Um olhar perdido e um franzido de testa do mais belo. É, gostei. Se a espelunca aceitar cartão, pago uma bebida pra moça.

_ Garçom, a espelunca aceita cartão?

_ Aceitamos – disse, como se fosse ele quem tivesse decidido aceitar cartão.

_ Vocês dividem em 2x?

_ Não sei. Acho que não.


_ Oi, princesa.

_ Oi. Sem essa de princesa.

_ Só não lhe pago uma bebida porque... os vinhos desta espelunca não são de qualidade.

_ Qual vinho você gosta?

_ Ah, já tomei dos tintos, dos brancos, dos nulos e indecisos. Mas não tem um assim, específico, que eu prefira.

_ Sei – diz, claramente constrangida com o comentário. Pergunta meu nome.

_ Sujeito. Ah!, mas pode me chamar de Sujo. E o seu?

_ Norma, mas pode me chamar de Morna; apelido de infância!

_ O meu também.

_ Coincidência. Não sei se é melhor ou pior que o nome!

_ É. Também não sei se é melhor ou pior que o nome.

Sem razão que eu perceba, ela sorri. Pergunta o que faço.

_ Sou trabalhador.

_ Que jeito estranho de se responder.

_ Não gosto da velha divisão, típica, né: Mega-empresários, engenheiros e advogados de um lado. Bloguistas, jornalistas, taxistas e frentistas do outro.

_ O certo é blogueiro.

_ Prefiro bloguista.

_ E eu não gosto daquela outra divisão: Patrões e empregados de um lado. Desempregados do outro – ela diz, depois ri.

_ Ah, essa daí também detesto. Além do que, o empregado de hoje é o desempregado de amanhã.

_ E o desempregado de amanhã é o assaltante de depois de amanhã!

Faço que concordo, pra agradar. E digo, no mais sincero: _ Só o patrão que não muda.

Morna ignora o comentário.

_ Mas no momento, o que tem feito?

_ Estou no ramo da filosofia de boteco.

_ Interessante. Nunca tinha ouvido falar...

_ É uma área que ainda está se desenvolvendo.

_ Estou impressionada.

_ Faço pesquisa, teoria, essas coisas.

_ Hun, que chique! Conte aí uma de suas teorias. – parece desacreditar.

_ Assim, de improviso?

_ Ah!, conta! Uma bonita, sobre coincidências, sobre o amor... sei lá.

(Jamais alimente rompantes de romantismo de mulher, dizia meu irmão – hoje, pai de três filhos).

_ Os relacionamentos começam porque nos deixamos impressionar facilmente. E terminam porque não deveriam ter começado.

_ Que idéia maluca. De onde tirou isso?

_ Dedução. Observação. Intuição.

_ Pensei que fosse algo mais científico.

_ Espertinha. Por que começam, então?

_ Porque cada um vê com os olhos que tem.

_ Não entendi nada. Sinal que você é inteligente.

Eu pergunto se os olhos dela são completamente contra a feiúra. Ela sorri e diz que não.


_ Nossa. Noite produtiva.

_ Sei o que chama de produtiva. Já vou avisando que não dou de primeira.

_ Quis dizer que fiquei impressionado com você... Posso contar sobre nossa conversa para uns amigos, em um blog?

_ Nem pensar.


_ Quero que prometa que não vai contar. Ainda mais em um blog.

_ Tá bem, eu prometo.


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Texto: Alexander Reis
Ilustração: Pablo Leandro

quinta-feira, novembro 20, 2008

20 de Novembro - Viva Zumbi!!



Consciência, meu Brasil!
Negra ou não, Consciência!

fotos: Projeto Negro Amor - Sérgio Guerra
Luiz Carlos - Site
Imagens da net

e a montagem tosca é minha mesmo!

terça-feira, novembro 18, 2008

Curtas


Auto-ajuda


Pense primeiramente nas ondas do mar. Pronto? Agora o assovio do vento, sinta-o batendo em teu rosto. A calmaria, a paz de espírito. É só você e o mundo. Você e a natureza. Pense coisas positivas, sempre, sempre. Não deixa as coisas ruins chegarem até você. E daí que seu time perdeu, sua mulher te chifrou, seu carro bateu, suas dívidas, sua impotência, sua calvice... Esqueça tudo isso. Esqueça o plano físico. Você é muito maior do que isso.


Ta melhorando? Não? Hum... Seu caso é mais grave do que eu imaginava. Já tentou ler O alquimista? Pai rico, pai pobre? O melhor dos líderes? Segredos de uma mente vencedora? 101 diferenças entre chefe e líder?


Já sei! Já viu o filme O Segredo? Para um caso tão sério como o seu, recomendo pelo menos 3 sessões deste filme! É tiro e queda. Pode ter certeza.


Não amigo.. Náuseas? Mas porque náuseas? Nada disso. Você tem que enfrentar de frente teus problemas. O que? Redundante? Por isso que nada na sua vida dá certo. Onde já se viu! Só vê o lado errado das coisas! Precisa de um giro de 360 graus!


Espera! Tá indo embora por quê?


Sexo


-Te pago uma caixa de cerveja se você me disser 5 coisas melhores do que sexo.

-Se eu soubesse apenas uma, abriria uma loja, venderia e ficaria milionário.


Samba e Pagode


Me cansa essa tentativa de distinção entre samba e pagode. A origem não é a mesma? Preguiça desse povo que cisma ser de raiz. Raiz me lembra árvore, árvore é sempre imóvel. Não quero nunca a imobilidade. Quer saber? Graças a deus não sou de raiz. Gosto é de música bem feita e pronto!


Aécio


Cortou o salário dos professores que entraram em greve, ta sabendo? Passar o mês com 250 reais. Como se a grana integral já fosse muita. E tem gente que ainda gosta dele... Estou sinceramente mudando de idéia em respeitar sempre a opinião alheia.


Futebol


Às vezes sonho que estou num campo de futebol, vestindo a camisa do Atlético, a torcida gritando meu nome. Mineirão lotado, final de campeonato contra o Cruzeiro. Um passe açucarado, 45 do segundo tempo, 0 a 0 no placar, me deixando na cara do gol. Desvio do goleiro e todos se assuntam. É gol contra! Acordo feliz, já que sou Cruzeirense desde sempre!


Zumbi


Alguém me explica por que cargas d´água o 20 de novembro em BH ainda não virou feriado? Nossos vereadores não teriam o mínimo de Consciência Negra?


Escola


Aluno do 1º ano me para no corredor:

-Ô Fessor, eu só to vindo na aula pra zuar. Tô com 21 anos e já comprei meu diploma.

-Depois a gente toma uma cerveja então.

-Me empresta o isqueiro?

-Pode fumar aqui não!

-Ninguém liga pra isso sô.

-Vou pra sala. Vem amanha?

-Nada. Só venho quando tem Educação Física, pra jogar truco.

-Tá certo!

-Falou!


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Foto: Luiz Carlos


Eventos Culturais (orkut) - Clica ai!

sexta-feira, novembro 14, 2008

Sinuca


-Pronto! Pode sair jogando.

-Caiu alguma? A 2! Par é minha.

-Me passa o isqueiro.

-Perdi no samba, acredita? De novo!

-Também né... esbórnia da porra.

-E num foi? Me apaixonei por aquela nêga.

-Sério? Merda... cortei demais...

-Sério velho. Mulher linda, inteligente, carinhosa pacarai.

-Porra, essa 7 sempre me faz raiva.

-E outra, parece que ela também gostou de mim. Isso sim é raro!

-Pegou telefone? Bolão heim! Andou treinando?

-Meio atoa... Jogando direto! Peguei sim... Falta coragem pra ligar.

-Coragem? Por quê?

-Acredita que esqueci o nome dela? Fui anotar no celular e percebi que não lembrava, ai fiquei com vergonha de perguntar. Dei mole.

-Ocê é burro heim! E agora? A 9 não morre de jeito nenhum no meio. Desisto dela.

-Agora vou dar o pinote né! Chamar de neguinha, lindinha, querida, até amoreco rola!

-Pediu outra cerva? Tô tomando um couro! Vou jogar com você mais não.

-Pedi sim. Ta trazendo. Deixa de onda sô. E sabe o pior? Até sonhei com a menina.

-Eita! Paixão é assim mesmo. Nunca ouviu falar que ela morre numa quarta-feira?

-Hoje é quinta, cacete.

-Entenda a lógica, amigo. Independente do dia. Você a conheceu no sábado. Fogo total. No domingo lembranças e sonhos. Segunda saudade. Terça tirando o fato de contar pros amigos, já esfriou um pouco. Quarta foi-se paixão porque quinta tem chorinho e um monte de mulher gata. Sexta já é fim de semana...

-É... faz sentido. Merda! Descaída da porra! Bola 1 é sempre sofrimento.

-Vou tentar te embebedar pra ver se ganho ao menos uma.

-Essa teoria. Gostei dela. Veio de onde?

-Uai. Creio que seja uma analogia ao carnaval né. Quarta-feira de cinzas e tal. Lembro que li um livro do Paulo Mendes Campos chamado: Os bares morrem numa quarta-feira. É uma crônica na verdade. Ele vai contando sobre bares que tiveram um auge e rapidamente fecharam, por motivos diversos, mas sempre deixando saudade. Só adaptei.

-Meio nerd, mas teve a manha. Inventa uma analogia pra sinuca sô. Encaçapando vidas, ou algo do tipo. Vai fazer sucesso.

-Não sou tão criativo. Talvez um texto baseado em Sartre.

-De Sartre você só tem o olhar meio vesgo e o relacionamento aberto. Não daria certo.

-Verdade...

-Jogar outra? Claro né. Arrumou fogo aonde?

-Coloca a ficha ai. Com o garçom. Copo ta cheio?

-Ta sim. Pena que hoje é quinta então... Brindemos a isso.

-A quê? A surra que tô levando?

-Não sô! Às paixões que passaram e as que ainda estão por vir. Saudade da neguinha...

-Ai ai... Cala boca e sai logo! Bar do Índio depois?

-Pra variar! Opa! Par é minha.


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Texto dedicado, inspirado e baseado nas várias quintas-feiras que passei ao lado de amigos tanto no chorinho do Bolão quanto na sinuca do Ponto Chique, finalizando no grande Recanto do Índio. Saudações!


Foto: adaptada por Luiz Carlos


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terça-feira, novembro 11, 2008

Janela


Ele saía do trabalho cansado, pensando apenas na cerveja do fim da tarde com os amigos. Jogar conversa fora, falar de futebol, política e mulher. Era um camarada divertido e todos por ali gostavam muito dele. Achavam as vezes que bebia demais, mas nunca incomodou ninguém. Pagava corretamente a conta e ia para casa, mas não sem antes mexer com algum rabo-de-saia. Mulherengo de carta maior.


Chegava com a janta ainda quente. A mulher normalmente vendo novela e o filho já na cama. Quase sempre discutiam por algum motivo bobo e ele acabava indo pra cama sem comer ou mesmo tomar banho. Passava no quarto do filho, desejava boa noite e assim era feliz.


A janela aberta, a brisa da madrugada entrando e embalando os sonhos. Uma vida simples, no entanto, nada mais queria para si.


Um dia, sem saber por que, acordou pela manhã e sua mulher não estava em casa e nem mesmo o filho se arrumando para o colégio. A ressaca era grande. Pela janela os vizinhos olhavam. Ele nada entendia. Saiu algemado, com a reprovação estampada no rosto de todos que por ali estavam. Viu ao longe a mulher em prantos, mas nada conseguiu dizer. Seu filho, de apenas 10 anos, caído no parapeito da janela.


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Ele saía do trabalho cansado, pensando apenas na cerveja do fim da tarde. Bebia, discutia, jogava e brigava. A maioria ali se sentia incomodado com sua presença. Enchia a cara ao ponto de mexer com a mulher dos outros, o que quase sempre lhe causava problemas. Ia pra casa aos trancos e barrancos, empurrado por alguém.


Chegava gritando a mulher, pedindo a janta na mesa. Ela já estava dormindo e seu filho também. Sempre discutiam e ele acabava partindo para violência. Acordava o filho às pancadas, e depois desmaiava no sofá. Todos os dias a mesma coisa. O medo e as ameaças calavam a jovem esposa.


A janela aberta fazia com que os vizinhos ouvissem os gritos e a quebradeira. A vergonha também era grande, no entanto nenhuma atitude havia sido tomada. Telespectadores da vida alheia, pra variar.


Um dia foi mais violento que o normal. Ao partir para cima da esposa acabou dando de cara com o filho que tentava protegê-la de mais uma surra. Os dois apanharam muito, mas o filho, de apenas 10 anos não saiu do lado da mãe em momento algum. De manhã, seu corpo estava no parapeito da janela, a mulher aos prantos e o homem saindo algemado, meio sem entender o que se passava.


A reprovação dos vizinhos era grande, talvez porque a novela desta vez estivesse no fim.


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Foto: Luiz Carlos Oliveira

Programação Cultural (orkut)

sexta-feira, novembro 07, 2008

O Universo Fantástico da Filosofia de Boteco


Número 2


Quinta, 21:26. Na fila.


Ôxe. Ai, ai, ai. Tiago disse, com decisão, com firmeza, que vou ter que contar meu nome lá naquele blog. Todo mundo tem um nome, agora eu também vou ter que ter. Que roubada! Cocô. Cocozão, viu. Como é que faz, como é que faço agora? Ah, mas o mundo é assim, né?, feito cerveja, tudo tem um nome, tudo tem rótulo, né não? E agora eu vou ter que ter. Mas continuo. Repare: É Antártica pra cá, Brahma pra lá; Nacionais pra cá, Importados pra lá; Tintos. Brancos.


_ Quanto é a entrada?

_ Pra você que tá panguando, 12 – disse o folgado segurança da espelunca.

_ Que panguando, mané. Só minha brisa que está mal. Deve ser conjuntivite.

_ Sei. Nome e identidade.

_ MG-98078450260387449835721749.

_ Essas identidades mais recentes estão vindo com muitos números, hein. Falta só o código de barra, patrão.

_ De fato.

_ Nome?

_ Sujeito. Ah!, mas pode me chamar de Sujo.

_ O patrão, coopera, patrão. Tô só fazendo meu trabalho. Nome completo, por favor.

_ Sujeito Indeterminado.

_ Sério?

_ É sério.

_ Desculpe, senhor. Sua mãe foi professora de português?

_ Minha avó, que Deus a tenha, pensava que a criança deve sempre, sempre!, levar o nome do pai, como um rótulo.

_ Como um carma a se carregar?

_ Isso. Aí aconteceu de minha mãe não saber o nome do meu pai nem de onde veio nem quem era. Por isso, ficou Sujeito Indeterminado.

Ele pára – coisa de 3 ou 4 segundos. Anota. Pensa.

_ Perdão, doutor. Mas se Maria, mãe do Menino, pensasse assim, com a lógica da tua mãe, Jesus Cristo se chamaria Sujeito Oculto. Foi obra do Espírito Santo...

_ Olha, é mesmo. Pelo menos não carrego um crachá escrito DIMAS.

_ Ô chefe, Dimas Aleluia, disponha.

_ Aleluia...? Diferente também, né. Um pouco extravagante.

_ Pois é. Nome de guerra. Fui zagueiro e capitão do Sábado de Aleluia. Time lendário. De história mais bela. Lá em Neves. Bezerro Manso no gol, eu, Da Cintura pra Cima, Pedro Pedinte, Paulinho Detento. No meio: Tarja Preta, Quebra-mola, Delegado, Trator Desgovernado; na frente TPM e Kleitin,O Açogueiro. No banco, Menina-moça, Marcha Lenta e o Vacas-magras. Técnico era o Professor. Saudoso.

_ Cada nome, hein, Dimas.

_ Nome não, apelido. Pra marcar.

_ Sei.

_ O TPM nós chamávamos assim porque o nego é mais nervoso que mulher nos dias. Mas nome é uma coisa doida...

_ Andei pensando nisso.

_ Ele encarnou tanto o apelido de TPM que, depois que escorria um sangue, até se acalmava. Sangue do adversário, no mais natural.

_ Nossa, incrível.

_ Com essa coisa de nome é assim: não se brinca.

_ E comigo? Pois conto. Às vezes sinto que não existo, um vazio. Como se eu não tivesse vontade própria. Como se eu fosse um fantoche. Um personagem, inventado pela mente doentia e sem escrúpulos de algum esquisitão. Acho que tem a ver com o carma. O carma da indeterminação... fruto desse nome estranho que recebi! Sinistro.

_ Meu time, Sábado de Aleluia, que era sinistro, na real. O Menina-moça não tinha passagem, não tinha antecedente. Nem na FEBEM nem nada. O resto, só vagabundo!

_ Um time de Ribeirão das Neves. Esperar o quê, meu filho?

_ Ô patrão, por favor, não rotule. Um Sujeito estudado dizendo uma coisa dessas.

_ Estudado não. Indeterminado. E o senhor, bom saber. Pelo jeito, vão ter que contratar um segurança pra vigiar o segurança...

_ Patrão, olha o preconceito. Não devo mais nada à lei, patrão.

_ Tem razão. Desculpe, Dimas, O Bandido. Além do que, compartilho da tua visão.

_ A que o nome pode invadir a alma do Sujeito? Ou sobre essa coisa de rotular?

_ As duas. Mas não vá achando que é bonito ser feio. Percebi o trocadilho com meu nome, babaca.

_ Ô chefe. Foi mal, chefe. Pode adentrar a casa, que a fila tá grande.

_ Você chama espelunca de casa?

_ Se o senhor chama esse farol baixo, essa cara de panguá, de conjuntivite...

_ Boa, Dimas. Bem pensado.

_ Já é. Próximo! Boa noite princesa, nome e identidade, por favor.


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Texto: Alexander Reis

Ilustração: Pablo Leandro


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